O DESAFIO DOS E-READERS NO BRASIL - A INSEGURANÇA PÚBLICA
Milton Mira Assumpção Filho*
 


Tenho escrito artigos e textos para o meu Blog sobre temas da minha realidade profissional, focando principalmente marketing e pessoas no trabalho.
O tema e-book tem sido recorrente nos negócios do livro no mundo todo e tem nos obrigado a estarmos permanentemente antenados.
Recentemente vivenciei uma situação inusitada que, independentemente da implantação do hábito de leitura através dos e-readers, levou-me a refletir sobre a utilização prática destas ferramentas, em decorrência da insegurança pública existente na maioria das cidades do Brasil, notadamente nas metrópoles. Este artigo busca abordar a utilização dos e-readers por este prisma.

Há alguns dias estive em New York para participar da Feira do Livro.
Apesar de ser denominada Feira, diferentemente das nossas de São Paulo e Rio, que tem a denominação charmosa de Bienal, não é aberta ao público,e não se vende livros a varejo.
Os participantes são profissionais da área, distribuidores, livreiros, professores, editores internacionais e alguns convidados.
São feitos vários lançamentos com autógrafos. As editoras determinam uma quantidade de livros a serem distribuídos gratuitamente.
É muito comum ver nomes famosos do cinema, televisão, política, dos esportes prestigiando e autografando os livros.
Este ano, estava bem menor que os anos anteriores. A crise econômica por que passa os EUA e o crescimento do e-book ajudaram a esvaziar o evento.

As vendas de e-book cresceram bastante por lá. As editoras americanas já disponibilizaram grande parte de seus catálogos neste formato.
A variedade e disponibilidade dos e-readers também tem colaborado. Você os encontra a valores bastante atraentes , a partir de US$75,00.
Amazon e Barnes & Nobles tem disputado este mercado, e isto faz com que a disponibilização dos conteúdos, a preços convidativos proporcione ótimas oportunidades aos leitores.
O New York Times já apresenta com regularidade os 10 Mais Vendidos em e-book e papel.

No Brasil estamos ainda iniciando. Ao contrário dos EUA, a maioria das editoras ainda não disponibilizaram seus livros no formato e-book. Temos somente alguns sites vendendo conteúdos. Não temos aqui, ainda, oferta e distribuição competentes. Percebemos uma movimentação grande no mercado de diversos sites anunciando a intenção de comercializar o livro digital, o que pode ajudar bastante. O governo está decidindo sobre a tributação. E por último, há uma pequena disponibilidade de e-readers para comprar. Eles estão ainda muito caros para os padrões brasileiros, principalmente se levarmos em consideração a disponibilização dos conteúdos.
A decisão de comprar um e-reader, neste momento, tem que ser muito bem pensada.
Muitos tem comprado tablets, como o iPad, que tem uma utilização múltipla, e que inclui também o e-reader . É mais caro e de acesso a poucos, mas pode ser utilizado para outras funções profissionais e de lazer.
A absorção do hábito de leitura e compra de textos digitais vai sim ser uma realidade, mas vai levar ainda um certo tempo.

Para nós editores as vendas de conteúdos pelo formato e-book é uma grande oportunidade. Além das vendas regulares do livro em papel, vamos agregar o valor destas novas vendas. Será preciso somente alguns ajustes internos na organização e nos sistemas de comercialização para começarmos a operacionalizar.

No Brasil, no entanto temos um problema grave adicional, a insegurança de andar com objetos de valor em lugares públicos.
Nesta última viagem à New York comprei um notebook HP, 17,3 polegadas, com vários recursos adicionais e só ao chegar no Hotel tive consciência que teria de enfrentar um imprevisto desafio. Viajar e chegar com notebook são e salvo na minha casa, em São Paulo.

Eu não podia colocá-lo dentro da mala, pois já havia vivenciado a experiência de despachar outros produtos eletrônicos e terem sido subtraídos pelo caminho. Teria de levá-lo como bagagem de mão. Até aí, tudo bem.
Surgiu um outro problema. Sair da Alfândega no Aeroporto de São Paulo e transitar pelo saguão carregando-o na mão. Há quadrilhas especializadas em roubar eletrônicos em Aeroportos. Muitas vezes seguem a vítima e roubam no estacionamento ou até no trânsito no percurso de volta.
Pois bem, eu havia comprado algumas camisas na Bloomingdale que vieram no famoso big brown bag. No hotel retirei o notebook e os acessórios da caixa original e coloquei tudo dentro desta sacola e embarquei no vôo com a sacola na mão. Era uma maneira simples e óbvia de disfarçar a verdadeira carga.
Chegando ao Brasil passei pela Alfândega, declarei, paguei a taxa de importação e caminhei pelo saguão carregando a sacola de camisas com o notebook escondido dentro dela. Felizmente cheguei com segurança em casa.


Fiquei imaginando, aqui no Brasil, onde as pessoas com seus tablets, e-readers irão utiliza-los? Onde é que de fato irão ler e-book? no metrô? no ônibus? em um barzinho? em uma lan house?
Se aqui no Brasil roubam simples celulares, ou MP3, imaginem o que pode acontecer quando virem pessoas desavisadas exibindo seus leitores eletrônicos em público.
Se um estudante tem de usar tênis velho para não ser roubado na saída da escola, o que pode acontecer se o coitado, distraidamente, sair carregando uma preciosidade destas pela rua.
Recentemente uma conceituada Escola aqui da região central de São Paulo, apareceu nos noticiários de rádios e jornais porque alguns de seus jovens estudantes tiveram seus celulares roubados, logo ao sair da escola, na calçada.
Na situação atual, o leitor só vai poder ler e-book em casa, no escritório, dentro da escola, em um hotel ou avião, assim mesmo se chegar até estes locais com seu tablet ou e-reader são e salvos.

Há um mês, um amigo teve seu notebook roubado dentro do ônibus que leva os passageiros do terminal do Aeroporto de Congonhas até a aeronave. Ele entrou no avião sabendo que o ladrão estava ali dentro. Era impossível obrigar aos passageiros abrirem suas pastas. A solução foi, na chegada do avião ao destino ele se postou ao pé da escada. O último passageiro que desceu trazia seu notebook na mão. Ele pegou de volta e preferiu não criar nenhum “barraco”.

Conversando com um Gerente Comercial de um grande produtor de microcomputadores ele me falou que a classe C e D prefere comprar micros de mesa. A razão é que toda a família pode utilizar. Eu, no entanto, acredito que um dos motivos é também proteção e segurança.
Em casa, a possibilidade de ser roubado é menor.
Imagine um rapaz de classe C e D saindo com um notebook ou um laptop pela rua afora. Ele corre o risco de não chegar na esquina.

Apesar de tudo, a implantação do e-book no Brasil é irreversível. As pessoas, os estudantes vão adquirir e-readers na medida do possível e correr os riscos. Será mais uma precaução a ser tomada por todos nós.
A leitura de textos digitalizados será implantada gradativamente em todas escolas.

Acredito que o e-book será muito bem sucedido no Brasil. Temos todas as condições para fazer dele uma ferramenta para a socialização do conhecimento e da informação em tempo real e a baixo custo. Estou muito otimista. Como Editor vejo o livro digital como uma nova e grande oportunidade de publicar mais textos e lançar novos autores. O Brasil é pródigo em escritores, que a partir de então, terão mais possibilidades de ver seus textos publicados.

Enquanto isso o livro de papel reina livre e forte no mercado brasileiro. Curiosamente estamos vendendo mais livros este ano. Felizmente há mais pessoas lendo, o que é muito bom.


 
*Milton Mira de Assumpção Filho, Administrador, editor, presidente da M. Books e membro da Academia Brasileira de Marketing.