O e-book é irreversivel!
Milton Mira Assumpção Filho*
 


Trabalhando como editor há mais de 30 anos, tenho acompanhado a evolução das tecnologias envolvidas na circulação da informação e na publicação de livros. Nos anos 80, publiquei os primeiros livros de Informática em Português e tenho usufruído dos benefícios das conquistas tecnológicas que nos propiciaram avanços incríveis na produção e impressão dos livros.
Na década de 90, já se falava que, no futuro, os livros não seriam mais impressos em papel e que seriam lidos em máquinas ou computadores portáteis. Nessa época, a Feira do Livro de Frankfurt, dedicou um grande espaço para o “livro digitalizado”. Estive lá comprovando e fiquei maravilhado e, ao mesmo tempo, assustado com o que preconizavam. No ano seguinte, no mesmo evento em Frankfurt, já não havia nenhum pavilhão dedicado ao tema, apenas um ou outro estande espalhado pela imensidão daquela exposição. Depois o que se viu foi um estande ou outro que insistia em anunciar o livro eletrônico.
O tempo passou e há relativamente, bem pouco tempo, o empresário americano Jeff Bezos, dono da Amazon, anunciou o lançamento de uma máquina que resolvia todos os problemas e dificuldades do livro eletrônico, o Kindle. Um aparelho simples, de uso amigável, capaz de armazenar vários livros, que podiam ser baixados a um custo menor que o do livro convencional e em tempo real. A mídia mundial divulgou o invento como algo realmente revolucionário. Autores ficaram maravilhados por vislumbrar a possibilidade de novos leitores lerem seus livros e novas receitas de direitos autorais, enquanto editoras e livrarias receberam a novidade com desconfiança. O curioso é que nós, editores, independentemente da Amazon, já estávamos sendo assediados pelo Google para colocarmos nossos livros disponíveis na Internet . A razão simples é que o Google trabalha e necessita conteúdo, e livro é um conteúdo atraente. Apesar de terem criado a máquina, os conteúdos dos livros ainda estão com as Editores
Algumas editoras americanas aderiram ao Kindle, imediatamente e passaram a oferecer conteúdos de alguns de seus livros pela Amazon. Em seguida a todo alvoroço causado pelo lançamento do Kindle, o empresário Steve Jobs, utilizando toda a força da marca Apple, dá um golpe de mestre (como sempre) e lança o charmoso iPad. Como era de se esperar, vários autores brasileiros, contagiados por essas novidades tecnológicas, passaram a nos procurar para saber da viabilidade de colocar o conteúdo de seus livros em uma desses fantásticos leitores eletrônicos.
Neste momento estamos em um processo de negociação e regulamentação do livro eletrônico junto a Autores, e empresas que serão responsáveis pelas vendas do conteúdo eletrônico. Temos de definir o preço a ser cobrado do leitor, o valor a ser remunerado às Editoras e conseqüentemente o valor que cabe ao Autor.
Nos próximos anos, vamos conviver com essa mudança de tecnologia e teremos livros e conteúdos disponibilizados pelas diversas máquinas que ainda serão inventadas, a preços mais baratos. Gradativamente, muitos livros, muitos temas terão seus conteúdos disponíveis eletronicamente, e muitos leitores, principalmente os mais jovens, já mais acostumados a interagir com maquinas e computadores migraram naturalmente para a leitura eletrônica.
Acredito que chegará um dia em que a mãe de uma criança, no início do ano, quando for comprar os materiais escolares vai ver que na lista está incluído um Kindle, um iPad ou algo já mais atual para a época. Então, poderemos ter uma ruptura. Toda essa geração a seguir não terá contato com o livro de papel. Todos os ensinamentos fluirão eletronicamente, a não ser que os pais, em casa, ainda teimem por algum tempo incentivá-los a manusear e ler um livro de papel. Mas acredito que vai chegar o momento em que eles também vão achar que o pouco tempo disponível deve ser usado para outras coisas mais interessantes, mais visuais, prontas em uma máquina. E que sonhar, viajar, imaginar serão coisas completamente anacrônicas. Aí, finalmente, o livro se tornará um objeto de arte digno de ser exposto em museus como o Louvre.
O E-book é irreversível e cabe a nós como leitores usufruir das facilidades e vantagens que ele proporciona. Eu pessoalmente, não tenho nada contra, pelo contrario vou querer utilizar principalmente quando tratar de uma leitura profissional e técnica. Por outro lado as leituras de prazer, de viajar, de curtir vou preferir no velho livro com o toque dos dedos, o folhear das páginas e o cheiro do papel.


 
*Milton Mira de Assumpção Filho, Administrador, editor, presidente da M. Books e membro da Academia Brasileira de Marketing.